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Depoimento
Recomeçar... para poder seguir...
Tenho 25 anos e faz 2 meses que voltei ao Brasil para com minha familia.
Com apenas 21 anos fui viver na Argentina com um namorado, agora meu marido e confidente de meu sofrimento.
Deixei minha familia, amigos, e Universidade e tomei a decisão de ir embora, tudo em apenas 2 meses!
Anos mais tarde escutei de meu psicologo que esta decisão havia sido uma "fuga" e que eu teria de descobrir os motivos...
Antes de deixar minha familia, eu já tinha um quadro razoavél de depressão, porém nunca foi tratado nem observado por ninguém a minha volta, sempre escutei que eram "coisas da idade".
Meu primeiro ano na Argentina foi marcado por uma luta constante e dificil de fazer meus documentos para poder estudar e trabalhar naquele país, e no meio de tanta burocracia decedi junto com meu marido nos casar para facilitar os tramites e adiantar aquilo que já era previsto, ou seja o matrimônio.
Nos enganamos, pois nada impediu que depois de 1 ano na Universidade Católica Argentina, aqui no Brasil conhecida como PUC, me impedissem de dar continuidade a meus estudos por falta de documentos que jamáis foram mencionados no momento de minha inscrição.
Com o objetivo de seguir estudando tomei a decisão de contratar 2 advogados, talvez para muitos seja algo simples, porém com a falta de minha familia e a ausencia de experiencia com assuntos de consulados, embaixadas, documentos, advogados, minha vida começou a virar um inferno e meu sonho de um dia ser jornalista foi desmoronando sobre minha cabeça, juntamente com a tristeza de ter trocado a segurança de já ter iniciado uma Universidade no Brasil com o apoio de minha familia e ter jogado essa oportunidade pra o alto.
Sempre tive muitas desavenças com meus pais, apesar que sempre se esforçaram para que meu irmão e eu tivessemos a oportunidade de estudar em boas escolas, jamáis eu havia trabalhado, pois a preferencia pelos estudos era primordial e com isso a culpa de satifazer a minha familia e sua opinião eram muito importantes e sobre minha mente recaía as vozes de meus pais sobre minha ida para a Argentina.
Com meu pai nossa relação é bastante complicada, militar por 30 anos...um homem de dificil acesso, com uma manera peculiar de ver a vida, que só depois de meus 3 anos de tratamento pude notar que o silencio é minha melhor arma.
Meu irmão, uma pessoa completamentre ausente e minha mãe uma dona de casa que é incapaz de contrariar meu pai.
Era visivél que não me restava nada além de dizer para minha familia que meu futuro estava comprometido e que demoraria a voltar estudar, vi as minhas poucas amigas se formando e se afastando, e que minha luta contra a Universidade era em vão...
Demorei 2 anos para conseguir meus documentos, e me deram 1 mes para conseguirlos e voltar a estudar...
Sem trabalho, sem estudos, sem amigos, sem meus pais, e mais da metade do dia sozinha porque meu marido trabalhava, comecei a dormir em excesso, não tinha animo para nada, vivia revoltada e bastante violenta principalmente com meu marido e nos momentos de tranquilidade apenas conseguia chorar.
Não saí de casa por semanas, somente acompanhada, não abria as janelas e passava o dia no escuro, no silencio, ao principio para disfarçar e não preocupar meu esposo eu abria a janela, tomava banho ou procurava mostrar que estava ocupada com alguma coisa com medo que ele brigasse comigo ou para não aparentar meu sofrimento...depois já não tinha forças ...
Tive que encontrar um culpado, e nessa busca meu casamento esteve por um fio...o que antes eram discussões triviais, agora eu já buscava por "ferramentas": facas, vidro, pratos, cadeiras, sapatos, vassoura o que eu encontrasse pelo caminho era jogado contra a única pessoa que durante todo o tempo procurou me compreender, passou noites de inverno na porta de um consultório me esperando e dedicou cada segundo disponivel a cuidar de minha medicação que eram 4 e bastante fortes...
Minha vida perdeu o valor, eu não saia de casa por medo de ver gente ou ter que conversar sobre minha doença, passei pelo pior momento quando cheguei a não dormir por 1 semana, o silencio da madrugada me enlouquecia, para compensar passava o dia na cama, minha vida inverteu...
Numa manhã fria e nublada com um aspecto de "morta viva" pela casa e chorando descontroladamente, não tivemos outra alternativa que ligar para os medicos de nosso plano de saúde, que talvez naquele momento fosse a unica coisa de melhor que eu tinha disponivel...
Foram 2 médicos a minha casa, um conversava comigo e outro apenas me olhava...na mesma semana eu comecei meu tratameto psicologico e psiquiatrico.
Depois de varias tentativas de suicidio, misturar alcool com remédios, facas bem afiadas, gilete, entre outras coisas comecei meu tratamento 2 vezes na semana.
No entanto ainda não havia terminado, minha luta estava apenas começando...
Minha familia insistia em culpar minha decisão de me afastar deles como resultado de minha depressão e ainda hoje que estou aqui jamais meu pai conversou ou perguntou sobre a verdade do que aconteceu, eles simplismente ignoram; não votei a estudar mesmo depois de meus documentos estarem prontos, tenho um desinteresse completo por qualquer coisa, não consigo me concentrar e tenho muito medo de recomeçar algo e deixar, além de não saber mais qual é minha aptidão para os estudos; deixei o tratamento forçada por causa de minha decisão de voltar para o Brasil sendo orientada pelo meu doutor que a contenção familiar seria o melhor e que deveria buscar um profissional que pudesse me atender uma vez na semana, mas como tenho intenção de voltar para Buenos Aires até porque continuo casada e longe de meu marido a 2 meses não quero recomeçar nada aqui.
Essas foram algumas consequências...
Depois de ver um filme pude avaliar meu problema...que mais tarde foi confirmado pelo meu doutor, entretanto ao descobrir o nome cientifico daquilo que eu achava que só sabendo o que era poderia me curar, não me serviu de nada além de aumentar minha angustia,
NEUROSE DEPRESSIVA ou DISTIMIA esse era o nome que eu perseguia nas minhas seções...
Muitas coisas que vivi em minha infancia e adolescia, e que e procurei esquecer, voltaram com toda força...
Fui abusada sexualmente por um tio paterno e por um vizinho, tio este que até hoje frequenta minha casa...
Usei maconha e outras drogas mais leves anos antes de ir embora do país.
Estive apaixonada por muitos anos por um mesmo homem, que com o passar do tempo o indentifiquei como espelho da minha fraqueza e destruiu minha auto-estima.
Tive uma etapa cleptomaníaca em que depois de descoberto, foi completamente abafado na minha casa, e outros acontencimentos infanto- juvenis.
Meu mundo se resumiu neste periodo de tratamento em internet era meu meio de estar conectada com o mundo e passei a acreditar em tudo, eu precisava de uma verdade, eu criei amizades que jamáis tive, criei até namoros virtuais enquanto meu marido dormia, e para completar esta situação comecei a sair com estas mesmas pessoas, sempre homens, que eu jamais tinha visto em minha vida, colocando tudo em risco, eu precisava de afeto desesperadamente e necesitava que outras pessoas que não conheciam minha história me cuidassem e tivessem prazer comigo, mergulhei de cabeça nas mais terriveis mentiras para justificar minha ausencia em casa.
Hoje depois de só 3 anos de tratamento, não utilizando medicação, sei que ainda tenho um largo caminho a seguir, sei que são poucas as pessoas que entendem e tem paciencia para escutar,existe todo um mito das pessoas que sofrem de depressão e que fazem tratamentos psicologicos e/ou psiquiatricos, o dialogo que eu tentei e acabei desistindo de ter com meu pai foi finalizado com meu silencio e por sua ignorancia, cada vez que meu tio passa pela porta de minha casa é quase instintivo que eu procure tomar banho, meu marido aflito na Argentina esta fazendo o possivel nesse momento delicado que vive o país para que eu volte e refaçamos nossas vidas e agora eu procuro manter minha cabeça ocupada, faço algum esporte ou leio algo, mas sempre tenho aquela sensação que amanha terei outra recaída e que aqui não tenho uma orientação medica, nem plano de saúde.
Não estou trabalhando, este talvez tenha sido um de meus erros no momento de minha crise, porque em todos os trabalhos que consegui tive de deixar por não ter o menor interesse por causa da minha angustia constante ao ponto de chegar em casa chorando para não voltar a trabalhar no dia seguinte, era um martirío...
Nesse pouco tempo que estou aqui, ainda não tenho resposta para esta "fuga" anteriormente mencionada pelo meu doutor, na verdade me apareceram outras dúvidas e questões que eu não tenho resposta, como exemplo que descobri que minha mãe também foi abusada sexualmente em sua infância e mesmo assim não foi capaz de me proteger para que isso não me acontecesse...
Hoje tenho pavor de ter uma menina, jamais me perdoaria se algo acontecesse a uma filha minha, não sei si é raiva mas depois de escutar minha mãe nunca pude conversar com ela sobre o que lhe aconteceu...
Hoje por hoje só desejo voltar para Argentina , retribuir o amor de meu marido e recomeçar o tratamento para poder seguir minha vida.
( Sozinha ) 08/05/02
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