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Depoimento
Olá, pessoal!
Após ter visitado a presente página,
motivei-me ao relato das minhas
experiências dolorosas por conta da
depressão, assim como da minha nova
abertura à vida!
Não estou certa quanto a eficácia dessa
iniciativa, mas estou convicta do meu
desejo de ajudar e de minha compreensão
e respeito para com aqueles que, por
hora, lutam, incessantemente, na busca de
vencer o desalento provocado por essa
doença.
Após forte impacto emocional no decorrer
da segunda gravidez, ocasionado pela
descoberta de traição conjugal, tive
minha auto-estima esfacelada. Senti-me a
última das mulheres.
A imagem que fazia do meu marido era de
perfeição, fator incentivador de
esforços e dedicação exclusivos, e de
progressiva anulação do meu próprio
SER. Assim, uma felicidade aparente
tomava conta do meu suposto paraíso. Ele
representava uma espécie de deus na
Terra, reforçado pela imagem que sua
família me passara e que eu,
acriticamente, inculcava. Depois de tanto
investimento, a decepção detonou minha
vida. Meu castelo se desmoronou.
Vieram os sintomas: vômitos, tonturas,
perturbações visuais, taquicardia,
entre muitos outros.
Após o parto, visitas ao Pronto Socorro
tornaram-se atividades do cotidiano.
Procurei um clínico geral. Fizemos todos
os exames possíveis. Do hemograma à
tomografia. Nenhum achado orgânico foi
encontrado. Conclusão: forte tensão
emocional.
Fui encaminhada a um psiquiatra, no
entanto, por conta do meu preconceito na
época, abandonei a idéia de tratamento
psiquiátrico. Tentei levar a situação
adiante ao meu modo. Que opção infeliz!
Minha tontura aumentou ao lado de um medo
terrível de passar mal. A situação
intensificou-se ao ponto de eu passar a
depender de terceiros, inclusive para
tomar banhos.
Minhas forças esvaíram-se. Fui LEVADA
ao consultório de um psiquiatra.
A essa altura o mundo já havia perdido a
cor e a vida transformada num verdadeiro
fardo. A necessidade de isolamento tomou
conta do meu ser.
Sentia-me ainda mais infeliz quando meus
amigos ficavam sabendo da minha
situação. Não conseguia sequer
alimentar-me. Perdi 10kg. Fiquei um
cadáver ambulante. Quase entrei em
desespero. Pedia a Deus um câncer à
continuar naquele estado deplorável de
agitação interna e descontrole
emocional. Minha vida perdera o sentido.
Só enxergava solução, na morte.
Todas as portas pareciam fechar-se.
Procurei padre, pastor, centro espírita
...enfim, todos e tudo que soavam
enquanto possíveis fontes de cura. O
quadro agravava-se à cada dia. Já não
conseguia ficar perto dos meus filhos, na
época com 1, 2 e 7 anos de idade.
Evitava a participação deles naquele
processo doloroso e destrutivo.
Instalou-se um sentimento de impotência
intensificando ainda mais os meus
conflitos.
A sorte parecia correr do meu caminho. O
psiquiatra receitou-me um
tranqüilizante, lorax, e o quadro
piorou. Fiquei mais agitada e com
sensação de ver uma fita com algo
fúnebre e incontrolável. Assim mesmo,
continuei com esse profissional por dois
meses, freqüentando sessões
psicoterápicas três vezes por semana.
Durante as sessões sentia um certo
alívio, mas pouco tempo depois tudo
retornava com a mesma intensidade.
Busquei um outro psiquiatra.
Diagnóstico: depressão profunda. Fui
medicada com o antidepressivo trofanil e
com o tranqüilizante lexotan.
Após dois meses de tratamento, estava
tão bem que pedi ao médico para iniciar
a retirada dos medicamentos. Ele
autorizou-me. Logo depois faleceu,
vítima de acidente automobilístico. Foi
outro choque, mas não desisti da luta.
Através de músicas clássicas,
atentando para cada nota, conseguia
evitar as recaídas.
Iniciei um esforço sem precedentes para
entrar em contato profundo comigo mesma e
na medida que descobria minhas reais
necessidades psicológicas, abandonava as
minhas pseudos-necessidades, oriundas do
meio social, e por mim inculcadas sem
questionamentos, portanto, indigestas ao
meu organismo. Através desse
procedimento, gradativamente cheguei a
posse do meu potencial organísmico e
passei a um viver mais pleno. Descobri
que não é suficiente respeitar o
espaço alheio. É igualmente
imprescindível a delimitação e o
respeito pelo próprio espaço. Passei a
me amar do jeitinho que sou, a reconhecer
e aceitar minhas limitações, fraquezas
e virtudes, com sentimentos positivos. Vi
que todos passam por momentos difíceis e
que a diferença está no modo de como
cada um os administra; que ninguém é
melhor ou pior; que as diferenças são
conferidas em termos de habilidades
pessoais e profissionais; que cada qual
desenvolve seus modos próprios de
"estar no mundo" de acordo com
as oportunidades e com os objetivos
almejados; que os temores são próprios
das incertezas das nossas inevitáveis
escolhas; que temos direito de errar e de
ver os erros enquanto referenciais para
posteriores investimentos físicos ou
psíquicos, longe de considerá-los como
fracasso, mesmo porque acho que o erro
por si só não existe.
Continuo lutando, tendo conflitos, porque
sou um ser pensante e afetivo em
constante movimento. A luta faz parte do
existir! Estou feliz, tentando aprimorar
cada vez mais minha capacidade de amar e
de aceitar a mim mesma e aos outros,
dentro das suas peculiaridades!
Enfim, o sofrimento serviu para a
descoberta de um potencial que até
então desconhecia. Na época tinha
apenas o segundo grau incompleto. Mesmo
com três filhos, fui a luta e consegui
concluir o terceiro grau com muita garra
e amor. De lá para cá não parei mais e
minha vida mudou radicalmente para
melhor.
Desejo que cada um de vocês também
encontrem maneiras eficazes de lidar com
as dificuldades. Acredito no potencial
humano, na sua capacidade de descobrir o
melhor caminho para um bem viver; assim
como entendo que a ajuda de um
profissional é fundamental, na maioria
dos casos. Vejo como valioso, paralelo ao
tratamento com psicólogos e/ou
psiquiatras, o contato com pessoas
dispostas a compartilhar seus mundos,
como se faz aqui.
Coloco-me, à disposição de todos.
Um beijo carinhoso.
Acolhedora
14/02/00 |
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